A fauna do deserto

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Josias mora numa casa pequena e velha, de alvenaria, sem reboco, telha de amianto, chão de terra. Ele, sua velha, filhos e netos. Não acompanhou essas modernidades que já fazem parte de nossas vidas. Não sabe o que é internet, tem pavor. Seus filhos já tentaram inúmeras vezes mostrar ao pai como ele poderia trazer mais fregueses, como seria mais fácil e economizaria sapatos. Mas, Josias, mesmo com sua educação precária de Mobral, faz milagres. Tira sempre um dia da semana para divulgar seu trabalho de vidraceiro. À mão mesmo, ele escreve seu “cartão” de visita: uma folha arrancada do caderninho de anotação e colocada de porta em porta, com nome, telefone e em letras graúdas VIDRACEIRO. Subestime não: Conhecido e querido por todos no bairro, certamente, ninguém lembra de aplicativos quando precisa deste serviço.

Mazé, já é estabelecida na vida. Mãe solteira, sofreu feito cão, mas, se superou. Tem uma venda de folhas para chás e curas. Religiosa fervorosa, é dessas que respeita a individualidade dos outros e não nos faz engolir suas crenças, não afeta. A mãe de Mazé, ainda é viva e mora no meio do fogo cruzado no Rio de Janeiro. Diz Mazé que sua mãe é dessas que nasceu num lugar e quer morrer lá. Se preocupa, mas, sabe que sua mãe, apesar da idade, soube se impor. Os traficantes até batem continência pra velhinha.

Carlos é um rapaz bonito, acaipirado, que trabalha junto do seu pai, num carro de produtos de limpeza. Eles são do Paraná. Estão em São Paulo há pelo menos uns 5 anos. O sotaque deles é marcante. Pai e filho usam chapelões na tentativa de se protegerem do sol, mas, em vão, pois, os dois tem os rostos queimados. Todos os sábados pouco antes do almoço ouço a campainha e uma voz dizendo: – vai cândida hoje moça…

Josias, Mazé, Carlos fazem parte da pequena lista que guardo na cabeça. Não são baixos ou altos, magros ou gordos, negros, brancos, pardos, amarelos, pobres ou ricos. São simplesmente, gente. Aquela gente que hoje em dia se tornou rara. Respeitadores, de boa conversa franca, gestos sinceros. Gente que olha no olho, que enfrenta mesmo com medo. Gente que tem opinião e não atrapalha ninguém em nada.

Eu não nasci pronta. Ainda estou aprendendo a ser gente. Já melhorei bastante. Reservo um pouco de bicho em mim, para enfrentar a bicharada. Mas, penso ser pouca gente que existe, rara gente, ampulhetas perdidas no deserto do mundo.

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Um círculo de cimento queimado

Publiquei este texto em 24 de agosto de 2014. Republico hoje, em homenagem ao meu pai querido José Maria de Vasconcelos que faleceu hoje. A única pessoa da “família” que, apesar da distância, eu realmente me importava, porquê soube ser gente de verdade. 

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Década de 70. Um jovem resolve sair de sua pequena cidade litorânea, onde nascera e se criara, no nordeste, a fim de conhecer o mundo. Passou por várias cidades, foi mascate, padeiro, marceneiro… cada cidade uma profissão. Alcançou São Paulo, carregando em si os almejos de um principiante na vida. Sonhos distintos, diferentes dos sonhos da maioria de seus conterrâneos. Mas, como todos os que chegavam nessa selva de oportunidades naquela época, trabalhou arduamente em bares e clubes nobres e pobres.

 

Serviu almoços, sobremesas, bebidas. Lavou muitos pratos, panelas e bacias. Fez amigos. Interagiu com muitas pessoas em uma época em que ainda se olhavam nos olhos. Meio cigano, o apelidaram de “Zé do Egito”, pois, às vezes, desvendava sonhos. Às vezes.

 

Essa interação lhe abriu a mente, descobriu um mundo de coisas que se identificava e o que lhe motivava. Tinha talento o Zé. As pessoas gostavam dele. Era como se ele fosse um ímã. Carismático, brincalhão, extrovertido. Um nordestino que carregava sangue espanhol, africano e português e adorava tapioca com café.

 

Planejou. Voltaria a sua terra para executar um projeto audacioso, mas, que era condizente com a época. Juntou salários e horas extras a fim de investir.

 

Belo dia, retornou. Comprou caixas de som, amplificadores, discos e um globo. Sim, um desses globos que cintilam à noite no centro das discotecas, mandou buscar em Fortaleza, feito sob encomenda.

 

Muitos fazem coisas mirabolantes. Bibliotecas itinerantes em bicicletas, cinemas improvisados nos quintais de casa, circos mambembes, rally nos sertões?! Entretenimento para pessoas que vivem suas culturas locais, distantes de toda essa modernidade que os paulistanos absorvem sem se darem conta daqueles que muitas vezes nunca viram uma lâmpada acender com a eletricidade.

 

Eletricidade, lá na terra do Zé do Egito, era novidade. Em um terreno de areia branca e fina, típica da região, em meio à cajueiros, mangueiras, galinhas, porcos e  cabras, ele pediu que cimentassem o chão em forma de círculo. Um enorme círculo de cimento queimado, aquele tipo que fica lisinho. E ali, instalou a primeira discoteca da cidade. A única discoteca por vários alqueires…como lá se diz.

 

A notícia rapidamente se espalhou. E, as moças e rapazes vinham até de outras cidades, para dançar, para ouvir música. O nordestino ousado, com alma de cigano, ficou todo orgulhoso de sua proeza. Tocava ABBA, Beatles, Bee Gees, Tim Maia, Sidney Magal, Boney M, Tina Charles e vários outros sucessos da época. Jovens dançando alegres, alguns de rostos colados sob o luar do sertão.

 

O tempo passou, e o bom partido da cidade, sabe-se lá por qual motivo, casou-se com uma jovem totalmente aquém da sua personalidade.  Um serzinho destes, mesquinho e imaturo, sem sal ou açúcar – comum no mundo. Escolhera bem? Escolhera? Mal casaram e a criaturinha macabéa engravidou. Tiveram uma filha.

 

Ele sabia que se quisesse estabilidade com sua discoteca, precisava fazer algumas melhorias. Deixou o seu sonho nas mãos de seus outros irmãos e retornou à São Paulo, onde pretendia, nos mesmos moldes, trabalhando muito, juntar mais alguns recursos para em sua discoteca abrir um bar.

 

Agora, tinha um família. Em São Paulo, tiveram outro filho. Mesmo com toda a responsabilidade adquirida, todo mês, ele enviava aos seus irmãos certa quantia, a fim de investirem.

 

Muito tempo depois, voltou. Mal desceu do ônibus e já foi pedindo para ver o bar, a discoteca, o som. Foi quando lhe deram a notícia de que tudo se definhara. A decepção. A traição. Seus irmãos passavam os dias esbanjando o dinheiro enviado. Não existia mais discoteca. Nunca fizeram o bar.

 

O nordestino, alma de cigano, decepcionado, retornou à São Paulo e deixou para trás qualquer coisa que lembrasse uma discoteca. Mergulhou em uma rotina de trabalho, casa, família. Tudo o que um ser sem sal nem açúcar com dois filhos, sua esposa, podia querer.

 

As areias voam, mudam. E, um dia passeando nessa cidade, no caminho do rio, em meio aos cajueiros, mangueiras, galinhas, porcos e cabras, eu vi um círculo de cimento queimado, lisinho, já rachado pelo sol, pelo desgaste do tempo. Coberto de areia branca e fina.

 

Não existe destino. Mas, existem prisões. Pessoas que são em si o universo, a magia do mundo. Que marcam a quem cruzar seus caminhos. Que dividem com os outros sua capacidade de alegrar e sua sensibilidade. Muitas vezes seus próprios caminhos se encerram em um canto qualquer de uma cidade voraz.

 

Não sei se reproduzi bem os fatos. Aquele jovem nordestino, alma cigana, calça boca de sino, camisa de seda, olhos e longos cabelos cor da noite, está preso em algum lugar.

 

Mas, naquela cidadezinha do nordeste, ainda hoje, de sua ousadia resta para aqueles que duvidam de sua existência, um círculo de cimento queimado, já o viu?

 

 

 

 

 

Pra não dizer que não falei das flores

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É exatamente por causa da imposição absurda dessa nojeira que ousam chamar de arte que não tenho menor sensação de que foram censurados os gênios da exposição do Santander (http://g1.globo.com/tudo-sobre/banco-santander-sa), exposição “atacada nas redes sociais”, assim como as literalmente exposições teatrais “anais” de outrora.

Segundo o dicionário do deus Google: Censura é a análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.

Então, está clara que na verdade há a inversão, é essa corja de maltrapilhos intelectuais endossados por seus semelhantes internacionalmente que censuram a sociedade, impondo essa tralha que facilmente pode ser confundida com uma cartilha escolar ou exposição de feira de ciências da 1a à 4a série, exceto claro, pela mensagem grosseira implícita. Talvez, no meio da tralha, até tivessem artistas. E é bem merecido a estes a generalização da crítica, já que, como artistas se submetem a expor seus trabalhos em conjunto com pseudo-artistas (notas de 3 dólares – falsas).

Daí veio o discurso dos descarados de que não se pode censurar a arte, dando exemplos de artistas hoje venerados e que no início de suas produções artísticas foram perseguidos. Alguns desses descarados defensores, autores de páginas no Facebook que se dizem entendidos em artes, donos de livrarias, escritores, renomados apenas em seus próprio círculo pelos amigos – foi o que vi no Facebook, em blogs, em jornais que produzem de tudo, menos jornalismo…

Por isso, ontem, perdi uns três amigos virtuais. Compartilharam bundas e no cabeçalho dizem que é pra chocar a sagrada família. Definitivamente, não me ofende uma foto bem tirada em branco em preto de um ser humano defecando. Achei até interessante. O que me ofende é exatamente a rudez, a parvice de certo grupo da sociedade, a baixeza e vilania.

Claro, não se pode censurar a arte, desde que seja A ARTE. Os parvos querem censurar na marra a sociedade e modificá-la rapidamente por tratamento de choque à base de bundas e bostas, adoecidos por ideologias rasas.

Vivemos tempos difíceis, de entre tantas tragédias, se ter que perder tempo em debater com minorias de psicopatas que impõem claramente seus transtornos como se, o padrão ideal fossem, utilizando-se para isso todos os meios de visibilidade carcomidos e contaminados pela falta de princípios, de personalidade.

Queriam o que estes, flores?

O estrangeiro

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Primeiramente, pobre, muito pobre. Muito ralo o caldo, sem sustância. Mas, não poderia abandonar e esculhambar sem experimentar. Mergulhei no caldo ralo, e, aos poucos, a panela levantou a fervura, mas, não engrossou o caldo.

Para que me entenda melhor, quando o enredo o trouxe à berlinda eu queria que escapasse de cumprir anos de prisão por assassinato. Não poderia acreditar que uma criatura tão inerte seria verdadeiramente culpada por encerrar a vida de outra criatura. Quanto mais se desenrolava a história mais eu via o quanto sua vida era feita de vísceras com ênfase nos intestinos.

No trajeto, conhecendo-o aos poucos, passei pela fase de por ele sentir um leve afeto, uma quase compaixão, principalmente quando deu sinais de ateísmo latente, talvez porque me enganei acreditando que a falta de atitudes eram na verdade uma opinião pessoal da criatura no sentido de que não deve satisfação aos outros.

Mas, com o descortinar dos atos percebi que na verdade era inércia. Era preguiça de aprofundar seus pensamentos, de debater os assuntos. Dava-lhe uma canseira corrosiva (que me corroeu só de ver) compor e posteriormente expor suas opiniões.

A certa altura da fervura, eu já me escalpelava de raiva de seu criador que tendo tão boa ideia de enredo, claramente teve preguiça ou incapacidade de preencher o esqueleto da obra, de desenhar com palavras os cenários vividos até a tragédia, de encorpar a criatura e engrossar o caldo.

E passei do olhar carinhoso de amiga oculta à torcida organizada do lincha! Lincha! Lincha! Agora, mergulhada em caldo ralo, até o pescoço, me pergunto porque não iniciei o percurso pela biografia do criador. Quase certo que a fervura aqui vem de um criador morno, contemplativo, amebático.

Mas, não poderia mesmo uma água de lavagem se estender por muitas fervuras, curta é a história.

Por fim, percebi que antes do fim, condenei seu criador. Condenei todos aqueles que vivem como gelatina sem sabor. Condenei a mim mesma pelas raras vezes em que pensei e não falei. E enfim, já tarde, mas, em tempo, o condenei à pena de morte por considerá-lo um assassino de si mesmo.

Hora de entornar o caldo: Desconfiei já ter visto semelhante história nalgum lugar. Albert Camus, bonito nome.

Salgado

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O chiclete que perdeu o sabor? Chegou a hora do descarte. De um momento  para o outro todas suas certezas terão se tornado algodão doce sob a chuva. Implacável é a vida no quesito reviravolta, vida doce meu amor, tal como rapadura.

Aquele que te admira hoje, amanhã estará te comparando. Você, que já está agregado à vitrine, conquistado.

É por isso que uns adoçam a vida na drogaria ou na adega. Os mais espertos fazem as malas e procuram se afastar da mentira inconsistente e viciante. Aprender a ser rocha agrega muito mais do que se viciar em rapadura.

Um dia, vendo uma chuva suave cair sobre a plantação de lavanda conclui que o grude doce não é liberdade. E nem amor.

Todos os dias o amor tem mil ondas se arrebentando nos paredões, se acabando em espuma sob o sol e é salgado.

Sobre omeletes, galos e quintais…

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Nenhuma galinha bota o ovo podre. Ovo galado ou não sempre será vencido pelo tempo. Tem coisa mais fétida e inevitável do que a morte? O pinto, o galo, derrotados.

A vida deve de ser uma busca incessante por um aconchego? Um teto que lhe proteja dos sol e chuva. Uma banheira quente ou uma ducha gelada. O conforto letárgico da engenhoca humana chamada de lar.

A vida não era pra ser mais que chocar um ovo? Era pra ser mais do que ser o ovo galado, o pinto vencido, ou o galo que morreu engasgado com a pipoca enquanto assistia o “The walking dead”.

É por pisar a terra úmida, encarar os insetos, sentir o cheiro das hortaliças, esperar pelas rosas meninas que vivo. Prestando atenção na conversa vadia dos passarinhos. Exercitando a percepção da vastidão que me rodeia. Sempre gostei do fundo do mar, pegar o ar e descer para poder observar as ondas passando por cima da cabeça até o ar acabar.

O tropeço, o corte, a dor e o riso. A cicatriz e o riso.

Não se contente com uma edícula.

Diga xis

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Ah, a foto. Um dia faziam pose, de cócoras na beira do lago do Ibirapuera e os que viam sarreavam de suas origens, pois, parecia um padrão, um código dos cafonas, coisa de jeca. De lá pra cá os tipos de gestos foram ampliados e aderidos pela maioria.  Quase todo mundo tem um preferido. O “v” ou a arma mostrada com os dedos, a boca em forma de ú, mostrar a língua, o pircing da língua ou ainda, dar aquela viradinha de cadela no cio!

Talvez seja a combinação do fácil acesso às tecnologias com a falta de ginga. Caem então nos gestos inconscientes que os unem à grande comunidade/coletivo do “somos todos ridículos”. O talento dele é o músculo e dela, os airbags frontais e traseiros. E veja que união incrível de gerações pela mesma causa nobre, pela melhor mesma pose.

E lá no alto da matéria ou antimatéria, vejo o chamariz: “Fulana mostra o tanquinho em click relax na praia” – a foto dispensou as mil palavras. O olho foi objetivamente em direção ao corpão anunciado. Encontrei apenas uma criatura visivelmente anoréxica (doente) que provavelmente aderiu à moda da anorexia por meio da dieta de comer pó. Isso mesmo, comer pó. Quando não é oitenta, é oito…

Ah, na foto, paradinho assim, aplica-se um efeito tecnológico na imagem, para realçar a beleza natural de acordo com o padrão (volátil) do momento. E claro que é um deus entre os mortais! Quem não te conhece, em atos, que te compre.

Essas nossas ‘Yashicas’ portáteis, deveriam vir com um curso para aflorar a sensibilidade visual. O ser humano nunca vai ficar pronto, está sempre entre a perfeição e o curto circuito.

Diga xis, para o raio-x da alma…