Diga xis

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Ah, a foto. Um dia faziam pose, de cócoras na beira do lago do Ibirapuera e os que viam sarreavam de suas origens, pois, parecia um padrão, um código dos cafonas, coisa de jeca. De lá pra cá os tipos de gestos foram ampliados e aderidos pela maioria.  Quase todo mundo tem um preferido. O “v” ou a arma mostrada com os dedos, a boca em forma de ú, mostrar a língua, o pircing da língua ou ainda, dar aquela viradinha de cadela no cio!

Talvez seja a combinação do fácil acesso às tecnologias com a falta de ginga. Caem então nos gestos inconscientes que os unem à grande comunidade/coletivo do “somos todos ridículos”. O talento dele é o músculo e dela, os airbags frontais e traseiros. E veja que união incrível de gerações pela mesma causa nobre, pela melhor mesma pose.

E lá no alto da matéria ou antimatéria, vejo o chamariz: “Fulana mostra o tanquinho em click relax na praia” – a foto dispensou as mil palavras. O olho foi objetivamente em direção ao corpão anunciado. Encontrei apenas uma criatura visivelmente anoréxica (doente) que provavelmente aderiu à moda da anorexia por meio da dieta de comer pó. Isso mesmo, comer pó. Quando não é oitenta, é oito…

Ah, na foto, paradinho assim, aplica-se um efeito tecnológico na imagem, para realçar a beleza natural de acordo com o padrão (volátil) do momento. E claro que é um deus entre os mortais! Quem não te conhece, em atos, que te compre.

Essas nossas ‘Yashicas’ portáteis, deveriam vir com um curso para aflorar a sensibilidade visual. O ser humano nunca vai ficar pronto, está sempre entre a perfeição e o curto circuito.

Diga xis, para o raio-x da alma…

 

Tempo de chuva

Ele nunca percebeu a real utilidade daquelas datas. Considerava todas elas inúteis tal como o facão que riscava repetidamente a seringueira. Sua memória seletiva só guardava o que considerva sublime, valoroso, útil, único.

Sabia a hora da chuva, do beijo dos sapos, da folia dos girinos. Sabia que o tempo nunca poderia ser realmente medido, mas, cabia na palma da mão de uma criança.

Sentia seus braços pesados e suas raízes profundas, ao mesmo tempo em que arranhava o céu. Era tão velho, que não trazia mais em sua memória o tempo de menino. Tão velho que as cascas descolavam de seu tronco deixando desalojados os cupins do maldito tempo.

Considerava o suicídio, um ato de extrema coragem, mas, morreu inúmeras vezes sem nunca ter sido um suicida de sucesso. Tentou.

E quando corajosamente encara seu reflexo nas águas da chuva, gosta do que vê. Um memorial se ergue neste momento, a sombrear a beleza viva e imponente de sua copa.

Pensa que a vida é fogo. Um incêndio prazeiroso que vai perdendo as forças, as dores, a lenha, e, aos poucos após a fumaça, vira cinzas. Mas, sabia a hora da chuva.

A hora da estrela

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Ali estava ela, iluminada pelos raios da manhã. Alva como o sol que a iluminava. As ondas de leve a traziam para a beira. Uma estrelinha branca que alcançou a praia pela primeira vez.

Mas, dentro da casa, um vazio. Vazio dos filhos que se foram para nunca mais. A casa era fúnebre, destas que cheiram à morte. Aquela velha senhora, rude, cruel, na tentativa de contar uma mentira, enfeitava as paredes com fotos do seu passado. Imagens de todos os santos. Havia também, o fingimento de fartura, ostentação inútil para os olhos dos vizinhos, sobre a geladeira, em todas as datas, os ovos de páscoa, o panetone ou as flores compradas.

Vez em quando, a dedo, escolhia o produto mais barato de seu armário, para fazer uma doação. Não se engane, esta velha rude afastava friamente aquilo que já não mais lhe servia. Seu gato adoeceu e sem muito pensar, foi abandonado doente, bem distante da casa, para que não transmitisse a doença da qual agonizava. Morreu estribuchando, este sim, na solidão e abandono.

São os enfeites que valiam àquele ser impossível de se identificar como humano. Neste dia, pela manhã, rindo, abriu a sacola e retirou ainda suja de areia, sua mais nova conquista.

Não encontrou nenhuma constelação oceânica, a estrelinha. Foi pendurada, com suas entranhas inteiras, na parede da casa, quem sabe, ainda viva.

O pecado mora ao lado. 

O chão da rua ainda estava úmido pelo sereno, mas, os raios de sol já desfaziam o frio da manhã. Na Avenida do Café iniciava-se o fluxo de pessoas apressadas para o café e para o trabalho. Nem tarde, nem cedo, era sete e meia.

A normalidade do dia só era quebrada por uma moradora ilustre, conhecida dos comerciantes  e moradores aos que apenas iam para o  trabalho, como eu.

Vulgo Dona Tequila. Nome, origem, idade, aptidões: desconhecidos. Parecia um carro alegórico. Plumas e paetês, baton e cabelos vermelhos carmim. Seu belo par de pernas também  não poderiam passar despercebidos em uma faixa de caratê disfarçada de mini-saia.

Tenho quase certeza de que Dona Tequila já havia alcançado seus oitenta anos de idade. Ainda assim, desafiava sua resistência diariamente numa carroça cheia até a tampa de materiais recicláveis. Ela e sua matilha: um exemplar de cada cor ou tamanho de vira-latas.

Eu já havia presenciado cenas dignas de filmes clássicos, protagonizadas por Dona Tequila. E naquela manhã, não parecia que veria uma dessas cenas.

Caminhava apressada e atrasada. Observei que Dona Tequila, sua carroça e sua matilha se aproximavam da esquina. O farol fechou e um senhor charmoso, cabelos grisalhos, parou o carro antes da faixa, claro. A passageira também era uma senhora. Observei rapidamente a conversa e troca de olhares dos dois, eram um casal. Enquanto isso, Dona Tequila já havia engatado a primeira, pela faixa, a fim de atravessar a rua.

Não sei o que a bela Dona viu. Em frente ao senhor do carro, puxou o freio da carroça que quase escangalha. A matilha desorientada, latia. Um cinco deitaram na faixa. Do outro lado, alguns já a esperavam. O restante achou que era festa.

Nesse instante percebi um olhar de Maria da Estrada. Dona Tequila se posicionou entre a carroça e o carro. E o mundo parou. Não tinha vento, os pássaros pararam de cantarolar nas árvores. As árvores não derrubaram mais nenhuma folhinha sequer. E eu? Também, parei pra gravar na minha mente uma cena de Hitchcock.

A bela Dona, sem mais delongas, levantou a sua saia! Não, não tinha anàgua, nem short, nem calcinha ou tanguinha. Apenas uma escuridão pavorosa.

Olhei para o senhor no carro. Ele perdia a inusitada apresentação, pois, lutava com sua senhora que cobrira-lhe os olhos, de modo que nem pudesse ver o farol abrir.

Apareceram na cena, então, dois caninos, melhor explicando, eram os únicos dentes que a dama possuía. Seguiu-se uma gargalhada. Abaixou a tarja preta atravessou a faixa de pedestres com sua matilha. E a vida continuou.

Mas, nada foi como antes. Não para mim ou para o casal .

Nesse momento entendi que não a apelidaram de Dona Tequila porque ela tomava refrigerante.

Pra finalizar, Dona Tequila foi a primeira feminista que conheci. 

Pescador de pérolas

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O vento fez silêncio ao observar
Uma onda bruta e fria, o que trazia?
Um corpo gasto reluzia
Luar em neblina no mar

Na mente faltou coragem
Na venda faltou o troco
Prato raso, peixe pouco
Esmoreceu antes da margem (ou do topo)

Morreu afogado o coitado
Afogado de fome, mas, a falta que fazia
Não era na sua tripa vazia
Mas, um mundo iluminado

Aquelas estórias de fé
Que ouviu quando menino
O fizeram tentar o sopro divino
E tonar-se aquilo que é

Tomou ele a vida como se açoite
E a morena levou seu corpo assombrado
Abraçou-lhe como seu namorado
Sabia ela, ele também sempre foi noite.

Incorporado à noite escura
Vive na memória do povoado
A visagem do pescador assombrado,
Que o luar fez sua iluminura.

Cortei meu pé num caco de vidro – Da série: “Os brutos fazem que amam.”

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(A arte traiçoeira da ironia)

Não suporto mais esses políticos corruptos, gananciosos e desumanos. O meu maior sofrimento é proporcionado pelo sistema que nos prende em nossos empregos, para trabalharmos a vida inteira de madrugada até a noitinha… Com esforço fenomenal, concluímos duas faculdades, para continuarmos no mesmo cargo e função. Nós, que somos pobres, não conseguimos superar o sistema. Fiz de tudo para vencer na vida e continuo na rotina.

Pra combater o sistema, colaboro com os coletivos sociais, mostrando meu dia-a-dia. É gente como eu, que carrega uma dor. A dor eterna de ser, de existir. Sempre me impressiono com a verba que pegam para documentários, o acesso que possuem para expor nossa realidade dolorida. Tomara que o vilão que é esse sistema, não perceba esse escape…

Pensam que o povo é burro, mas, não somos não. O sistema tira tudo de nós, é por isso que, não perco uma fila que esteja distribuindo gratuitamente o que quer que seja. Me aproveito de tudo aquilo que chamam de programas sociais, sempre fui esperta assim.

Minha vida cultural é agitada. Estou lendo o livro do padre que ainda não se recuperou da morte de seu cachorrinho, mas, mesmo assim, doente, escreveu um ótimo livro. É um homem santo mesmo, tanto que vendeu quase trezentos mil livros este ano. Ainda falando em cultura, desde a época em que morei na COHAB, ouço as mesmas músicas que chamam a morte, a chuva e exaltam o tráfico de drogas na região. Músicas, cantadas por pessoas angelicais, que são em si, um espelho de minhas mazelas. Me identifico com a sinceridade delas. Entorno toda a cachaça do mundo e cometo barbáries com toda razão, pois, tenho muitas decepções.

Sempre penso que o sistema é um aprofundamento no “não ser”. A busca frenética pelas sete pragas do mundo, pelo apocalipse. Mas, sabe que isso me dá um prazer enorme, pois, não há esforço além do que faço pra sobreviver, que  já consome todas minhas energias.  Espírito livre que sou, vou transar com o mundo para provar que apesar do sistema escravizador, serei o legítimo acolhimento de todas as dst´s e ganho, quem sabe, um filho pra botar enfeites nos feriados. Uma criaturinha pra mimar e transmitir tudo o que aprendi nessa vida de ruínas, com ou sem chikungunya, afinal, o sistema parece que está bancando caso a produção não dê certo.

Uma dona lá do meu trabalho, recalcada, me disse que esse modo de ser da humanidade é uma patologia coletiva, uma grau profundo de psicopatia. Penso que isso deve ser bom, afinal, somos a maioria.

Sou do tipo consoladora. Que divide velório e cova. Eu amo sofrer junto a dor dos outros. Acho que a humanidade precisa disso. Um espetáculo fúnebre como foi com o time de Chapecó. Afinal pra que privacidade às famílias, quando elas tem a todos nós. Inclusive alguns amigos meus foram até lá fazer umas fotos. Foi legal.

Agora, na virada, soltei todas as bombas para comemorar, minha casa parecia a sede do Estado Islã, deve ser esse o motivo da morte do meu furão de estimação. Também fiz o joguinho na loteria, pus uma roupa íntima amarelinha, pulei sete ondas, distribui beijinhos pela praia. Muitos beijinhos! São os momentos na vida que temos que aproveitar para sermos felizes.

Mandei um zap pra todos os meus mil amigos que não estavam presentes. Sou muito popular nas redes sociais. No Natal teve morte lá em casa, então, só meu primo assassino está bloqueado. É claro que publiquei um vídeo do meu Natal sangrento e ganhei mais amigos!

Dizem que o Réveillon na Av. Paulista também foi muito bom. Tinham muitos cantores renomados. Vi na TV Globo que a Paulista também estava cheia de estrangeiros curtindo. Pena que eles não conseguem entender nosso idioma, pra poderem apreciar tudo de nossa boa música. Eu acho que esses cantores certinhos que tocam vários instrumentos, que ficam com frilula de rimas ricas e notas musicais, morrem de inveja do que é pop. Esses esnobes brindam final de ano e dão uma “palinha” para a meia dúzia de parentes, enquanto a “melô do moletom” rola solta no luxuoso palco da Paulista, que o sistema bancou.

Tenho fé que será um ano novo diferente. Tem um cara, talvez um cachaceiro das antigas que dizia que “Toda unanimidade é burra”, ele não sabe de nada.

FELIZ 2017 😘😍😂😁😀😜🙃🙄😈😻😵🙈🙊🙉❤💔💞💖🎆🎈✨🎉🎇🎊🎄🎋🎻🎸🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🔫🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬📽📽📽📽📽📽📽📽📽🍃🍂🍁🌿🌾🌵🌴🌳🌲🌱☘🥀🌷🌼🌻🌺🌹🏵🌸💐🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀🍀👌👌👌

Que em 2017 não sejamos ínfimos. E nem medíocres. Afinal, não dá para se alcançar resultados diferentes mantendo a mesma cultura.

 

Eternidade

A

A “Casa das Nuvens” foi abandonada não se sabe por quantos anos e a identidade dos últimos ocupantes também permanece um mistério. http://www.dailymail.co.uk/news/article-2947363/Frozen-time-Inside-abandoned-Welsh-farmhouse-decades-old-photographs-collection-pocket-watches-coat-left-hanging-up.html

 

Debaixo da telha vermelha-esverdeada:

Um broto semi-protegido do furor

e da temperamental vida que escorre pelas paredes.

Sob a telha, ainda, se protegem as paredes, quase.

 

Uma família de tatuzinhos-de-jardim farream nas quinas dos caibros podres.

Começa a soçobrar a casa. Seus cantos já dilacerados, alimentam o broto.

É uma dor quase triste ou quase alegre, comédia pastelão.

 

Um dia no retângulo fúnebre a dança fez música e a música fez mágica.

A lua iluminou os brotos de braços dados, aqueceu seus corações.

A telha emborcada no canto, conta a história.

Uma parede já caiu.

 

A vida temperamental escorre na face.

O broto vingou.

A impávida natureza desemboca sua implacável transformação.

A ouço sobre as casas, sob as telhas em cacos e chuvas: passageiras, todas elas.

Ouço, a natureza em nós, que somos pela essência, suscetíveis ao tombo e ao riso.

Mas, a escuto num sol Szopen–eterno.