Salgado

espumas flutuantes

O chiclete que perdeu o sabor? Chegou a hora do descarte. De um momento  para o outro todas suas certezas terão se tornado algodão doce sob a chuva. Implacável é a vida no quesito reviravolta, vida doce meu amor, tal como rapadura.

Aquele que te admira hoje, amanhã estará te comparando. Você, que já está agregado à vitrine, conquistado.

É por isso que uns adoçam a vida na drogaria ou na adega. Os mais espertos fazem as malas e procuram se afastar da mentira inconsistente e viciante. Aprender a ser rocha agrega muito mais do que se viciar em rapadura.

Um dia, vendo uma chuva suave cair sobre a plantação de lavanda conclui que o grude doce não é liberdade. E nem amor.

Todos os dias o amor tem mil ondas se arrebentando nos paredões, se acabando em espuma sob o sol e é salgado.

Sobre omeletes, galos e quintais…

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Nenhuma galinha bota o ovo podre. Ovo galado ou não sempre será vencido pelo tempo. Tem coisa mais fétida e inevitável do que a morte? O pinto, o galo, derrotados.

A vida deve de ser uma busca incessante por um aconchego? Um teto que lhe proteja dos sol e chuva. Uma banheira quente ou uma ducha gelada. O conforto letárgico da engenhoca humana chamada de lar.

A vida não era pra ser mais que chocar um ovo? Era pra ser mais do que ser o ovo galado, o pinto vencido, ou o galo que morreu engasgado com a pipoca enquanto assistia o “The walking dead”.

É por pisar a terra úmida, encarar os insetos, sentir o cheiro das hortaliças, esperar pelas rosas meninas que vivo. Prestando atenção na conversa vadia dos passarinhos. Exercitando a percepção da vastidão que me rodeia. Sempre gostei do fundo do mar, pegar o ar e descer para poder observar as ondas passando por cima da cabeça até o ar acabar.

O tropeço, o corte, a dor e o riso. A cicatriz e o riso.

Não se contente com uma edícula.

Diga xis

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Ah, a foto. Um dia faziam pose, de cócoras na beira do lago do Ibirapuera e os que viam sarreavam de suas origens, pois, parecia um padrão, um código dos cafonas, coisa de jeca. De lá pra cá os tipos de gestos foram ampliados e aderidos pela maioria.  Quase todo mundo tem um preferido. O “v” ou a arma mostrada com os dedos, a boca em forma de ú, mostrar a língua, o pircing da língua ou ainda, dar aquela viradinha de cadela no cio!

Talvez seja a combinação do fácil acesso às tecnologias com a falta de ginga. Caem então nos gestos inconscientes que os unem à grande comunidade/coletivo do “somos todos ridículos”. O talento dele é o músculo e dela, os airbags frontais e traseiros. E veja que união incrível de gerações pela mesma causa nobre, pela melhor mesma pose.

E lá no alto da matéria ou antimatéria, vejo o chamariz: “Fulana mostra o tanquinho em click relax na praia” – a foto dispensou as mil palavras. O olho foi objetivamente em direção ao corpão anunciado. Encontrei apenas uma criatura visivelmente anoréxica (doente) que provavelmente aderiu à moda da anorexia por meio da dieta de comer pó. Isso mesmo, comer pó. Quando não é oitenta, é oito…

Ah, na foto, paradinho assim, aplica-se um efeito tecnológico na imagem, para realçar a beleza natural de acordo com o padrão (volátil) do momento. E claro que é um deus entre os mortais! Quem não te conhece, em atos, que te compre.

Essas nossas ‘Yashicas’ portáteis, deveriam vir com um curso para aflorar a sensibilidade visual. O ser humano nunca vai ficar pronto, está sempre entre a perfeição e o curto circuito.

Diga xis, para o raio-x da alma…

 

Tempo de chuva

Ele nunca percebeu a real utilidade daquelas datas. Considerava todas elas inúteis tal como o facão que riscava repetidamente a seringueira. Sua memória seletiva só guardava o que considerva sublime, valoroso, útil, único.

Sabia a hora da chuva, do beijo dos sapos, da folia dos girinos. Sabia que o tempo nunca poderia ser realmente medido, mas, cabia na palma da mão de uma criança.

Sentia seus braços pesados e suas raízes profundas, ao mesmo tempo em que arranhava o céu. Era tão velho, que não trazia mais em sua memória o tempo de menino. Tão velho que as cascas descolavam de seu tronco deixando desalojados os cupins do maldito tempo.

Considerava o suicídio, um ato de extrema coragem, mas, morreu inúmeras vezes sem nunca ter sido um suicida de sucesso. Tentou.

E quando corajosamente encara seu reflexo nas águas da chuva, gosta do que vê. Um memorial se ergue neste momento, a sombrear a beleza viva e imponente de sua copa.

Pensa que a vida é fogo. Um incêndio prazeiroso que vai perdendo as forças, as dores, a lenha, e, aos poucos após a fumaça, vira cinzas. Mas, sabia a hora da chuva.

A hora da estrela

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Ali estava ela, iluminada pelos raios da manhã. Alva como o sol que a iluminava. As ondas de leve a traziam para a beira. Uma estrelinha branca que alcançou a praia pela primeira vez.

Mas, dentro da casa, um vazio. Vazio dos filhos que se foram para nunca mais. A casa era fúnebre, destas que cheiram à morte. Aquela velha senhora, rude, cruel, na tentativa de contar uma mentira, enfeitava as paredes com fotos do seu passado. Imagens de todos os santos. Havia também, o fingimento de fartura, ostentação inútil para os olhos dos vizinhos, sobre a geladeira, em todas as datas, os ovos de páscoa, o panetone ou as flores compradas.

Vez em quando, a dedo, escolhia o produto mais barato de seu armário, para fazer uma doação. Não se engane, esta velha rude afastava friamente aquilo que já não mais lhe servia. Seu gato adoeceu e sem muito pensar, foi abandonado doente, bem distante da casa, para que não transmitisse a doença da qual agonizava. Morreu estribuchando, este sim, na solidão e abandono.

São os enfeites que valiam àquele ser impossível de se identificar como humano. Neste dia, pela manhã, rindo, abriu a sacola e retirou ainda suja de areia, sua mais nova conquista.

Não encontrou nenhuma constelação oceânica, a estrelinha. Foi pendurada, com suas entranhas inteiras, na parede da casa, quem sabe, ainda viva.

O pecado mora ao lado. 

O chão da rua ainda estava úmido pelo sereno, mas, os raios de sol já desfaziam o frio da manhã. Na Avenida do Café iniciava-se o fluxo de pessoas apressadas para o café e para o trabalho. Nem tarde, nem cedo, era sete e meia.

A normalidade do dia só era quebrada por uma moradora ilustre, conhecida dos comerciantes  e moradores aos que apenas iam para o  trabalho, como eu.

Vulgo Dona Tequila. Nome, origem, idade, aptidões: desconhecidos. Parecia um carro alegórico. Plumas e paetês, baton e cabelos vermelhos carmim. Seu belo par de pernas também  não poderiam passar despercebidos em uma faixa de caratê disfarçada de mini-saia.

Tenho quase certeza de que Dona Tequila já havia alcançado seus oitenta anos de idade. Ainda assim, desafiava sua resistência diariamente numa carroça cheia até a tampa de materiais recicláveis. Ela e sua matilha: um exemplar de cada cor ou tamanho de vira-latas.

Eu já havia presenciado cenas dignas de filmes clássicos, protagonizadas por Dona Tequila. E naquela manhã, não parecia que veria uma dessas cenas.

Caminhava apressada e atrasada. Observei que Dona Tequila, sua carroça e sua matilha se aproximavam da esquina. O farol fechou e um senhor charmoso, cabelos grisalhos, parou o carro antes da faixa, claro. A passageira também era uma senhora. Observei rapidamente a conversa e troca de olhares dos dois, eram um casal. Enquanto isso, Dona Tequila já havia engatado a primeira, pela faixa, a fim de atravessar a rua.

Não sei o que a bela Dona viu. Em frente ao senhor do carro, puxou o freio da carroça que quase escangalha. A matilha desorientada, latia. Um cinco deitaram na faixa. Do outro lado, alguns já a esperavam. O restante achou que era festa.

Nesse instante percebi um olhar de Maria da Estrada. Dona Tequila se posicionou entre a carroça e o carro. E o mundo parou. Não tinha vento, os pássaros pararam de cantarolar nas árvores. As árvores não derrubaram mais nenhuma folhinha sequer. E eu? Também, parei pra gravar na minha mente uma cena de Hitchcock.

A bela Dona, sem mais delongas, levantou a sua saia! Não, não tinha anàgua, nem short, nem calcinha ou tanguinha. Apenas uma escuridão pavorosa.

Olhei para o senhor no carro. Ele perdia a inusitada apresentação, pois, lutava com sua senhora que cobrira-lhe os olhos, de modo que nem pudesse ver o farol abrir.

Apareceram na cena, então, dois caninos, melhor explicando, eram os únicos dentes que a dama possuía. Seguiu-se uma gargalhada. Abaixou a tarja preta atravessou a faixa de pedestres com sua matilha. E a vida continuou.

Mas, nada foi como antes. Não para mim ou para o casal .

Nesse momento entendi que não a apelidaram de Dona Tequila porque ela tomava refrigerante.

Pra finalizar, Dona Tequila foi a primeira feminista que conheci. 

Pescador de pérolas

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O vento fez silêncio ao observar
Uma onda bruta e fria, o que trazia?
Um corpo gasto reluzia
Luar em neblina no mar

Na mente faltou coragem
Na venda faltou o troco
Prato raso, peixe pouco
Esmoreceu antes da margem (ou do topo)

Morreu afogado o coitado
Afogado de fome, mas, a falta que fazia
Não era na sua tripa vazia
Mas, um mundo iluminado

Aquelas estórias de fé
Que ouviu quando menino
O fizeram tentar o sopro divino
E tonar-se aquilo que é

Tomou ele a vida como se açoite
E a morena levou seu corpo assombrado
Abraçou-lhe como seu namorado
Sabia ela, ele também sempre foi noite.

Incorporado à noite escura
Vive na memória do povoado
A visagem do pescador assombrado,
Que o luar fez sua iluminura.